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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Acidente em Senador Pompeu deixa quatro mortos e dois feridos

O acidente envolveu uma moto e um caminhão na noite desta sexta-feira, 10, na BR 226
Quatro pessoas morreram e duas ficaram feridas após um acidente entre um caminhão e uma moto na BR 226, em Senador Pompeu. O acidente aconteceu por volta de 19 horas desta sexta-feira, 10, em uma rotatória do município. Ambos vinham no sentido Milhã - Senador Pompeu. A moto tentou fazer o balão em direção ao Centro da cidade quando colidiu com o caminhão, de placa JKH-4815, que virou no acostamento. Segundo a perícia, provavelmente o condutor da motocicleta não viu o caminhão que vinha atrás, nem deu sinal.

As vítimas foram o motorista da moto Nilo Nogueira de Lima, 65 Anos, a filha que estava na garupa Joélia Nogueira de Lima, 21 anos. As outras duas vítimas eram a companheira e filha do motorista do caminhão Mercedes Marisete Góis de Sousa, 38 anos, e Lorrana Sousa dos Santos, 2. As duas pessoas feridas estavam no caminhão, que transportava tijolos. Foram Lucas de Sousa, 9 anos, e o motorista Francisco Vieira dos Santos, que foram hospitalizados mas não correm risco de morte.

Fonte Diário do Noredeste

terça-feira, 1 de junho de 2010

SEGUNDA-FEIRA DE ASSALTOS VIOLENTOS COM MORTE NO INTERIOR DO CEARÁ



















"Dois homens armados assaltaram, por volta das 11h45min desta segunda-feira, 31/05, a agência dos Correios do município de Senador Pompeu - CE.

Segundo informações do Tenente Santana, da Polícia Militar do município, um senhor que estava na fila de atendimento dos Correios foi baleado pelos bandidos e morreu quando era socorrido para Fortaleza. O senhor morto foi identificado como José Lourival da Silva.

Durante o assalto, houve troca de tiros entre a Polícia e os dois homens, que conseguiram fugir em uma moto, levando uma quantia em dinheiro ainda não divulgada.

Até agora, os assaltantes não foram identificados pela Polícia."

Fonte de Informação Blog do Coronel Adail Bessa de Queiroz

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

CAMPOS DE CONCENTRAÇÕES





CAMPO DE CONCENTRAÇÃO NO CEARÁ

No início do século 20, no Ceará, os poderes públicos estadual e federal criaram campos de concentração para evitar que flagelados famintos fugindo do sertão semi-árido chegassem a Fortaleza
por Xico Sá
"E você tem visto muito horror no campo de concentração?”, pergunta o sertanejo Vicente a Conceição, personagens do romance O Quinze, da escritora Rachel de Queiroz. Os dois conversam não sobre as prisões nazistas construídas durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, quase três décadas depois. O diálogo diz respeito aos currais erguidos no Ceará pelos governos estadual e federal para isolar os famintos da seca de 1915, considerada uma das mais trágicas de todos os tempos no Nordeste.
O objetivo dos campos era evitar que os retirantes alcançassem Fortaleza, trazendo “o caos, a miséria, a moléstia e a sujeira”, como informavam os boletins do poder público à época. Naquele ano, criou-se o campo de concentração (era assim mesmo que se chamava) do Alagadiço, nos arredores da capital cearense, cenário do livro de Rachel, que chegou a juntar 8 mil esfarrapados, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos.
Segundo o historiador Marco Antonio Villa, autor de Vida e Morte no Sertão, durante a seca de 1915 teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migraram para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semi-árido.
O medo das autoridades diante dos flagelados da seca tinha um antecedente. Em 1877, uma leva de cerca de 110 mil famintos saiu dos sertões e tomou as ruas de Fortaleza, assombrando os moradores que viviam a ilusão, importada de Paris, de urbanismo e civilidade. No livro A Fome, o mais consistente relato sobre o cenário de 1877 nas ruas da capital, o cientista social e escritor Rodolfo Teófilo assim descreve o que viu: “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que te afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! Faz horror! Os que têm rede, vão nela, suja, rota, como se acha; os que não a têm, são amarrados de pés e mãos em um comprido pau e assim são levados para a sepultura. E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”.
Memórias do horror
O ano da graça de 1915, relatado na ficção de Rachel de Queiroz, sertaneja da fazenda Não Me Deixes, no município de Quixadá (CE), seria apenas o ensaio da segregação estatal dos miseráveis. Em 1932 é que o modelo de isolamento iria vingar para valer. Na “seca de quinze” – como era chamada a estiagem – ainda não existia sequer a famosa “indústria da seca”, como se convencionou chamar a ajuda do poder federal às oligarquias nordestinas – diante das ameaças de saques e violência das legiões de famintos, os grandes proprietários de terra sempre chantagearam o governo federal, principalmente a partir dos anos 1930, alocando recursos para a região que na maioria das vezes acabavam se revertendo em benefício das próprias elites.
“De longe eu sentia o cheiro de podridão, chegava a tapar as ventas. Era tão forte o fedor que é como se eu o sentisse hoje, mesmo eu estando com a memória fraquinha, fraquinha”, diz Manuel Conceição Rodrigues de Sá, 87 anos, um rapaz de 15 anos durante a seca braba de 1932. Hoje, ele mora no subúrbio de Juazeiro do Norte, no Ceará, terra do Padre Cícero, personagem que já era celebrado como santo naquele tempo, pelas levas de famintos que buscavam por sua bênção. Manuel morava, então, no município de Serra Talhada, em Pernambuco. Trabalhava como tropeiro – tocava burros com carregamentos de cachaça dos engenhos da região do Cariri, no sul do Ceará, para municípios de Pernambuco e da Paraíba. “Era num sítio ali perto do Crato, só vi uma vez de perto o campo de concentração, nunca mais tive coragem de passar junto. Pense num desmantelo! Gente apodrecendo de verdade, pareciam uns urubus quando o governo mandava comida”, afirma o ex-mascate.
O cearense do Cariri Miguel Arraes de Alencar, nascido em dezembro de 1917, na cidade do Araripe, governador de Pernambuco por três mandatos, guarda também lembranças do campo de concentração do Crato, onde morou sua família. “A seca braba de 32 é muito forte em minha memória. Um dia, quando ia estudar, me deparei com três homens presos. Eram flagelados do curral da concentração. Foram presos como desordeiros, só porque ficaram revoltados com as injustiças na distribuição de comida por lá”, afirmou Arraes em conversa com este repórter, em 2002. “É uma lembrança que guardo para sempre, as histórias vindas de lá eram um horror danado.”
Pelo campo de concentração do Crato passaram cerca de 65 mil pessoas durante aquela estiagem. Ali, o governo prometia comida, água, assistência médica e oferta de trabalho. Pouco disso, no entanto, acontecia. Não havia água tratada, nem comida para todos e muita gente morria de fome ou doença e era sepultada ali mesmo. O campo se tornou um foco de tudo o que é infecção. Em alguns dias, o número de mortes de famintos alcançava a marca de 200. Há registros de pelos menos outros cinco currais no estado do Ceará, localizados em Quixeramobim, Senador Pompeu, Cariús, Ipu, Quixadá e o último nos arredores de Fortaleza, como derradeira tentativa de evitar que os famintos convivessem com a população da capital.
"Eram locais para onde grande parte dos retirantes foi recolhida a fim de receber do governo comida e assistência médica. Dali não podiam sair sem autorização dos inspetores do campo. Havia guardas vigiando constantemente o movimento dos concentrados. Ali ficavam retidos milhares de retirantes a morrer de fome e doenças’’, diz a historiadora Kênia Rios, da PUC-SP. As estatísticas oficiais, que não conseguiam abarcar todos os alistados nos “currais”, dão conta de 73918 “molambudos” nas seis áreas de confinamento – 6507 em Ipu; 1 800 em Fortaleza; 4 542 em Quixeramobim; 16 221 em Senador Pompeu; 28648 em Cariús e 16200 no Crato, conforme uma das melhores fontes sobre o assunto, o livro Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e Poder na Seca de 1932, de Kênia Rios.
Um sobrevivente da segregação é Antonio Siqueira da Silva, de 90 anos, que tinha 18 anos quando foi “jogado” com a família – pai, mãe e mais 12 irmãos – no “curral dos flagelados” do Crato. A família havia mudado do município de Quebrangulo, terra do escritor Graciliano Ramos, para Juazeiro do Norte, cidade hoje emendada ao Crato, em 1930. “A gente veio por causa dos milagres do meu padim Ciço. Só se falava nas obras do ‘meu padim’ por esse mundão todo afora. Ai meu pai pegou a penca de menino, botou em cima dos burros, e chegamos aqui em Juazeiro, pois lá nas Alagoas não tinha mais como viver que preste”, diz Silva, em depoimento para o projeto Nova Geografia da Fome, do Centro Cultural Banco do Nordeste. “Chegando aqui o meu padim nos botou lá no sítio do beato Zé Lourenço, onde tinha muita fartura. O mundo todo sem nada para comer e o beato lá dando de comer a todo mundo, até irrigação já tinha.”
Seguidor do padre Cícero, Lourenço (1872-1946), nascido na Paraíba, chegou a abrigar cerca de mil pessoas no começo dos anos 1930. Conhecida como o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, a comunidade foi destruída e bombardeada – a primeira vez que as Forças Armadas usaram aviões para um massacre no Brasil – em 1937, por ordem do ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, durante o governo de Getúlio Vargas. O poder central, insuflado pelas autoridades cearenses, temia que o beato pudesse transformar o seu vilarejo em mais um Canudos, episódio que ainda assombrava os militares. No massacre, teriam morrido cerca de 700 pessoas. Lourenço escapou, fugindo pela Chapada do Araripe. Doente, morreria nove anos depois, em Exu (PE), município nas cercanias do Crato.
“O sítio do beato foi ficando cheio de gente demais, ai meu pai achou melhor a gente escapar da fome lá no ‘curral dos flagelados’, pois o governo prometia muita esmola por lá”, diz o sobrevivente do campo de concentração Antônio da Silva. “Mas quem disse que as esmolas chegavam? Lá perdi foi seis irmãos, de fome braba. Eu mesmo só escapei porque fugi com o resto, de madrugada, ainda lembro como se fosse hoje. Era uma catinga tão feroz, meu filho, que nem dava pra dormir direito. E os urubus em cima, querendo arrancar as tripas dos falecidos.”
A história das secas que castigam a população do Nordeste desde pelo menos 1877, deixou um rastro de tragédias e mortes assombroso. Nunca foi feito um levantamento a respeito dos números de nordestinos que perderam as vidas por causa da fome nestes períodos. Os levantamentos parciais, no entanto, são assustadores. Somente entre 1877 e 1913, portanto ainda sem os números da seca de 1915, o governo federal, por intermédio do IOCS estimava que 2 milhões de pessoas haviam morrido em conseqüência da miséria nas estiagens. Pouco mais de 100 anos depois, a equipe do livro Genocídio do Nordeste (organizado pela Comissão Pastoral da Terra e o Ibase, entre outras organizações) repetiu o desafio de contar as vítimas da seca e chegou ao número de 3,5 milhões de mortos somente no período entre os anos de 1979 e 1984.

Da frigideira para o fogo
Cearenses foram pararnas trincheiras da revoluçãoem São Paulo
Em 1932, enquanto a seca castigava o sertão, uma guerra era travada a 3 mil quilômetros dali. Em São Paulo, tropas revolucionárias enfrentavam o Exército brasileiro num levante contra Getúlio Vargas, que assumira a presidência em 1930. Quando a luta apertou, os governos federal e estadual, que criaram os campos de concentração no Ceará, convocaram seus ocupantes para engrossar o caldo contra os paulistas. Para quem estava faminto e desabrigado, servir o Exército não parecia ser tão ruim. Sem ter a menor noção do que enfrentariam, muitos seguiram de navio e caminhão para as trincheiras de São Paulo. O escritor paraibano José Américo de Almeida, ministro da Viação, responsável pela política de combate à seca no Nordeste, foi um dos defensores da medida: “O Norte veio para a trincheira impelido pela gratidão e pelo instinto de conservação, pois só no Ceará o Ministério da Viação deu trabalho a 100 mil homens e 500 mil brasileiros foram salvos da fome”, disse, na época, ao jornal O Povo, de Fortaleza. Segundo o jornal, em 19 de agosto, pouco mais de um mês do início dos combates, já haviam sido enviados pelo menos 1 200 cearenses para a linha de fogo. Entre eles, crianças e idosos. “O apoio da nova oligarquia nordestina a Vargas materializou-se na formação de batalhões de voluntários, boa parte constituída por retirantes, inclusive crianças e adolescentes”, diz o historiador Marco Antonio Villa no livro Vida e Morte no Sertão. O Povo registrou os sofrimentos desses nordestinos em São Paulo, “submetidos às mais duras humilhações”. O jornal relatou que na capital paulista a população provocou depredações e incêndios em lojas cujos proprietários eram migrantes do Ceará. No seu livro, Villa conta que os soldados da seca não tinham treinamento adequado para quem ia a uma guerra, nenhuma experiência militar e até o fardamento que utilizavam era inadequado para a região, o que fazia a tropa passar muito frio. Porém, não há estatísticas sobre o número de vítimas nordestinas na guerra vencida por Getúlio, mas estima-se que menos da metade retornou ao Ceará.
Fome no campo
Meu avô presenciou a morte do irmão
Xico Sá
“Seco, meu Deus, só o fiapinho de gente, despencou em cima da carroça [carrinho de mão], já se tremendo todinho e ali mesmo morreu”, contava João Patriolino de Menezes, meu avô, sobre a morte do irmão, Francisco, durante a construção de um açude na Batateira, nos arredores da cidade do Crato, no Ceará. Chico Patriolino, como meu tio era chamado, nascido no vizinho município de Exu, em Pernambuco, era um dos alistados do campo de concentração do Cariri, o maior do território cearense. Tinha 22 anos quando foi vítima da tragédia. Meu avô João escapou por ter sido “adotado” pelo coronel pernambucano Manuel Alexandre de Sá, a quem servia como jagunço em uma tropa que chegou a ter 120 homens e que, em duas oportunidades, em 1926, invadiu a cidade de Santana do Cariri (CE) para tentar depor o prefeito, outro coronel, Felinto da Cruz Neves, também com fortes ligações com o cangaço. No primeiro confronto foram dez horas de troca de tiros, no segundo, 36 horas de conflito, conforme relata o livro Guerreiros do Sol, do historiador Frederico Pernambucano de Mello, da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Nos dois combates, o bando de Sá acabou recuando. “Quando comecei a comer direito, quase morro também, pois o corpo não estava acostumado. Passava sempre mal até me acostumar”, afirmava ele, morto em 1991, aos 75 anos. “Madrinha Zefinha [mulher de Sá] foi me cevando aos poucos, pois eu era só a grade de gente.” Chico e João saíram da casa dos pais, em Exu, para tentar escapar da seca braba de 1932. Dos 12 irmãos, meu avô só voltaria a encontrar sua irmã Rudá, ainda viva, aos 89 anos, residente em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. “Soube que morreu um bocado, naquela seca mesmo”, era tudo que dizia João quando indagado pelos parentes sobre o restante dos seus irmãos. “E eu, que escapei da fome, por muitas vezes estive pra morrer de bala. Era assim naquele tempo. Sobreviver nessas duas guerras foi um milagre de meu Padre Cícero do Juazeiro, só sendo, pois eu vi a velha da foice umas 200 vezes.”

SECA DE 1932




















O PESADELO DA SECA



No alto de uma colina esturricada pela seca no município de Senador Pompeu, sertão do Ceará, as ruínas de uma antiga vila operária escondem um pedaço da História do Brasil que poucos cearenses gostam de contar. Erguidos em 1919 para abrigar operários e engenheiros ingleses que construiriam ali um açude de grande porte, os casarões tornaram-se palco de doença e morte. Durante a impiedosa seca que assolou a região em 1932, a Vila dos Ingleses sediou um campo de concentração para o confinamento de flagelados. O gueto era vigiado por soldados, como em uma guerra. O objetivo era isolar os retirantes e evitar a invasão das grandes cidades pela miséria e por epidemias.

Moradores de Senador Pompeu, hoje com 27 mil habitantes, resolveram ajudar a desenterrar o episódio na tentativa de atrair a atenção e verbas do governo federal para a região, outra vez castigada pela seca. A estiagem já dura dois anos. Há algumas semanas, visitou o local um enviado da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, o advogado Carlos Moura, encarregado de recolher vestígios desse triste passado. Missão relativamente simples: a lembrança do cárcere permanece viva na memória dos 15 sobreviventes que lá ainda residem. "Comíamos a cera que escorria das velas na esperança de não morrer de fome, pois a maior parte da comida doada pelo governo estava estragada e o pouco que chegava em condições de consumo era roubado pelos guardas", recorda um deles, Guilherme Sabino da Silva, de 74 anos. Sua mulher, Maria de Jesus, que o conheceu criança na Vila dos Ingleses, afirma que os dois só não morreram de fome "porque Deus não quis". O casal teve 14 filhos, nove já morreram e os cinco restantes estão desempregados.

A morte era rotina nos chamados "currais da fome", criados pelo governo de Getúlio Vargas sob o disfarce de obra social para distribuir alimento. Ao todo, em 1932, construíram-se sete quartéis no Ceará e no Piauí, para onde foram levados 70 mil flagelados. A Vila dos Ingleses, em Senador Pompeu, era o maior deles - das 17 mil pessoas que passaram por lá, pelo menos mil morreram de fome e doenças. Sob o sol escaldante e sem nenhuma água, milhares de famintos com cabeça raspada, para evitar piolhos, eram obrigados a descarregar o alimento enviado de trem pelo governo. A maior parte chegava estragada, como testemunharam Guilherme Sabino e Maria de Jesus, e os melhores cortes de carne iam para a cozinha dos militares. Para os retirantes, sobravam somente o sangue, o coração e os bofes dos bois. A sopa era preparada com mato e goma (amido de mandioca). As crianças comiam rapadura e morriam de diarréia. "O feijão era tão duro e ruim que ganhou o apelido de Zé Félix, nome do mais truculento guarda do campo de concentração", recorda Maria de Jesus.

À noite, luzes de holofotes vigiavam as vias de acesso e o comportamento dos "prisioneiros", amontoados em barracos feitos com gravetos secos e estopas cortadas dos sacos de comida. "Alguns guardas deixavam namorar num quartinho escuro, o mesmo usado para açoitar os desobedientes", lembra Maria Perpétua Vieira, de 75 anos. Seu avô era coveiro e guarda do cemitério. Os doentes não podiam sair do gueto. Rezas, choros e lamúrias cortavam a madrugada, denunciando o desespero dos famintos. Muitos morriam - cerca de 20 por dia -, e os cadáveres eram enterrados às pressas em valas para evitar o ataque de cachorros e urubus.

O horror daqueles dias só não se perdeu na História graças à Companhia Art-Cultura Metade de Nós, um grupo de estudantes e profissionais liberais de Senador Pompeu. Há dois anos, eles trabalham na localização de sobreviventes e na recuperação de documentos históricos. O acervo será guardado num museu a ser instalado nas ruínas de quatro casarões ainda de pé na localidade - um deles a antiga casa de pólvora onde os ingleses da Dwight P. Robson & Co. guardavam os explosivos usados na construção da Barragem do Patu.

A barragem, com a qual seria criado um mega açude para distribuição de água, teve as obras interrompidas em 1923 por falta de verbas. Retomadas em 1986, formaram apenas um pequeno lago, que hoje praticamente só serve para embelezar a paisagem. "A água do açude não abastece todas as casas nem é usada para irrigar as lavouras, destruídas pela atual estiagem", lamenta Flávio Alves, diretor do documentário Cerca Seca, recém-filmado na região com a participação de 283 atores e figurantes locais. As pragas e as secas destruíram tudo em Senador Pompeu, grande produtor de algodão no século passado. Em 1932, a questão social tornou-se crítica porque choveu 58% a menos que o normal. Mas a seca atual é pior que a do período do campo de concentração. O agricultor João Batista Marcelino, de 50 anos, cultiva a roça ao lado do açude. Sem ter como captar água, perdeu toda a plantação de milho e feijão. "O problema não é a sede, mas chuva para podermos plantar e comer", afirma, rezando por uma solução que caia do céu.

Sérgio Adeodato, de Senador Pompeu

TRIBUTOS A SENADOR POMPEU


















Minha doce e amável Senador, berço
Das minha saudades, insipiência da
Minha mais tenra infância...
Menina matuta de pureza angelical;
Que de brenhosa transformastes mulher,
Fostes tu, regozijo dos meus prazeres Múltiplos ;
Fostes em ti menina moça Mulher
Que aprazível dei meus Primeiros passos e
Foi em teus seios fartos que ávido
Pude saborear o colostro do apego,
Desde então nosso pacto de vício
Tornousse imaculado. Ah!
Minha meiga mulata de brio Veemente
De cabelos vivos em ébanos banhado;
Menina donzela que das entranhas
Diáfano do riacho Codiá vieras nascer...
Só para te cantarei Meus versos,
Sejam eles alegres, ou Lúgubres,
E tão somente á ti dou
Merecimento de acolher-me em
Repouso eterno.


Eeste poema é uma dedicatória a minha querida cidade Senador Pompeu-CE


Todos direitos Reservados ao Autor Francisco Vantuilo Gonçalves
Vantuilo Gonçalves

CAMINHADA DAS ALMAS

















Os caminheiros se reúnem antes das 5 horas na igreja matriz de Nossa Senhora das Dores e, quando o sino tocar, saem na direção do cemitério da Barragem do Patu cantando hinos religiosos. É mais uma Caminhada da Seca lembrando os flagelados e os que morreram no Campo de Concentração de Senador Pompeu, município que fica a 291 quilômetros de Fortaleza. A multidão caminha 3,2 quilômetros, mas há paradas em determinados pontos.

A caminhada se realiza há 26 anos e, cada vez mais, reúne um maior número de pessoas que relembram o flagelo de 1932: os confinados, as vítimas da epidemia de cólera, os que foram enterrados em um cemitério improvisado que ficou conhecido como Cemitério da Barragem. O local é considerado santo pelos participantes que serão acompanhados por padres e religiosos. Nas paradas, os sacerdotes e leigos farão leituras bíblicas e os sobreviventes da seca de 32 farão seus depoimentos.

Muitos crêem e fazem pedidos de graças às "almas da Barragem" e, durante a caminhada, fazem agradecimentos por seus pedidos atendidos. Segundo o padre João Paulo, o objetivo da caminhada é, principalmente, lembrar que ali existiu um campo de concentração e rezar pelos que ali padeceram. As pessoas que participam são de Senador Pompeu e outros municípios do Sertão Central. O campo de concentração já foi objeto dos mais variados estudos, livros e produção de arte. Ali, quando chegam, os fiéis acendem velas e fazem orações.

No cemitério da Barragem estão 1.500 corpos dos 16.221 retirantes, aprisionados no campo de concentração de Senador Pompeu. Conta-se que foi o padre italiano, Albino Donatti, que começou a caminhada, mas já havia a devoção do povo pelas almas dos flagelados. A peregrinação é realizada, anualmente, no segundo domingo de novembro.

SAIBA MAIS

> A seca de 1932 foi uma das maiores da história do Ceará. Fome e doenças como cólera, febre amarela e varíola marcaram aquele povo sofrido pela sede e fome. Senador Pompeu foi uma das cidades que abrigou um dos sete campos de concentração, criados pelo governo da época para deter a vinda de retirantes à Fortaleza.

> Diz a crendice popular que o ano terminado no número dois é sempre de seca. O ano terminado em quatro é sempre de enchente. Seguindo essa lógica, 32 só podia ser período de estiagem. Na concentração de Senador Pompeu, passaram a viver milhares de flagelados de diversos municípios cearenses e de outros estados do Nordeste.

> O governo obrigava as vítimas da seca a trabalhar na construção da barragem do açude Patu. No entanto, repentinamente, a obra teve seus trabalhos paralisados e, junto com a paralisação, o governo deixou de manter o posto de saúde e o setor de fornecimento de alimentos que funcionava no campo. Com isso, os retirantes foram adoecendo e morrendo.

> Atualmente, Senador Pompeu é o único município onde se encontra viva a memória do campo de concentração. O cemitério da Barragem do Patu é considerado um espaço sagrado para visitação. Há romarias, pessoas que rezam e pagam promessas. Os moradores acreditam que as almas dos concentrados são milagrosas, porque sofreram muito.

MULHER MORTA EM SENADOR POMPEU












AGRICULTOR EXECUTA A ESPOSA COM GOLPES DE FACÃO

Subiu para 65 o número de mulheres assassinadas, este ano, no Ceará. Na noite de quinta-feira, uma dona-de-casa foi executada pelo marido. O crime ocorreu na localidade de Sítio Riacho do Meio, na zona rural do Município de Senador Pompeu (a 275Km de Fortaleza). Francisca Cavalcante Farias, 61, foi morta a golpes de facão pelo marido, o agricultor José Pinheiro Farias, 59.

O acusado do crime terminou sendo preso, na manhã de ontem, quando chegava ao hospital público de Senador Pompeu apresentando sinais de problemas psicológicos. O delegado-regional da Polícia Civil do Município, Marcos Sandro Lira Nazaré, deu voz de prisão ao acusado e o autuou em flagrante por homicídio triplamente qualificado.

DN